segunda-feira, 19 de julho de 2010

Alegações Finais-O caso do promotor de Atibaia...Esclarecedor! Recomendo...


PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO
O EMBRIÃO DA INJUSTIÇA
O FATO
Por volta da meia noite e meia, do dia 4 de junho de 1.998, os guardas do Posto Rodoviário lobrigaram a figura de um homem que se aproximava correndo, com as vestes desarrumadas e, ofegante, apresentou-se e passou a narrar:
“Meu nome é Igor, sou Promotor de Justiça e acabei de ser assaltado, na entrada do Condomínio Shangrilá...Minha mulher foi levada pelos bandidos...Ela está grávida...”
O aspecto do Promotor era um misto de ansiedade, medo e revolta. Tinha pressa para que se fizesse alguma coisa. Olhos muito arregalados; sua cabeça calva parecia ter recebido todo o sangue do corpo, tão vermelho estava.
Dois policiais pegaram as suas armas, subiram na viatura, rapidamente, com o promotor Igor. Rumaram, sem perda de tempo, em direção ao local, onde o crime ocorrera. Distava cerca de dois quilômetros e meio do Posto Policial Rodoviário, na cidade de Atibaia. Aproximaram-se do Condomínio.
No caminho, Igor informava sobre o acontecimento e, ao chegar sob o Portal, completou:
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“Quando íamos ultrapassar este local, bem aqui embaixo da cobertura do Portal, apareceu um homem, que fez sinal para que eu parasse. Como meu condomínio ninguém entra sem se identificar, pensei que aqui haviam adotado esse sistema. Parei o carro quando, subitamente, fui atacado pelo ladrão. “Desce...desce... não se coça... senão leva chumbo...”
Pequeno aclive dava acesso ao Condomínio. O portal, com telhado tipo chinês, com frente para a Rodovia Fernão Dias, oferecia duas passagens: entrada e saída de veículos. Um cômodo, do lado direito da entrada, semelhante àqueles utilizados por zeladores e outro do lado esquerdo, minúsculo, mas bem conservados. Um bico de luz externo permanecia aceso. a Viatura avançou, ultrapassando o Portal, rampa acima, seguindo a orientação do Promotor Igor.
Noite fria. Os faróis do veículo dos Rodoviários varavam a escuridão com dificuldade, misturando neblina e poeira, fazendo com que a visão se tornasse curta, embaçada.
Logo acima, bifurcavam-se as ruas, impossibilitando saber para que lado rumara a caminhonete. Os policiais optaram por uma das variantes que, mais abaixo, contornava, em grande círculo, desembocando, novamente, na Rodovia Fernão Dias...
O que mais o senhor se recorda, Doutor? Perguntava o policial.
"Então, - respondeu o promotor visivelmente abalado, - como eu ia dizendo, procurei dialogar com o bandido, porém ele subiu no carro e penetrou na escuridão, tendo sido acompanhado por um indivíduo conduzindo uma motocicleta, que a tudo observara, a uma distância de vinte metros. Esse da moto não deu para observar, mas aquele que se aproximou de mim tinha mais ou menos um metro e sessenta e cinco, bigodinho fino, moreno, pele grossa. Lembra um pouco o jogador Romário."
O Policial Rodoviário que permaneceu no Posto incumbiu-se de comunicar a ocorrência à Delegacia de Polícia Central de Atibaia. O Policial Civil de plantão ao receber o informe, procurou tranquilizar o Promotor:
"Positivo, Policial Rodiviário. Diga ao Doutor Igor para que não se preocupe porque nas últimas horas é o terceiro caso de sequestro relâmpago ocorrido na Cidade. Nos dois casos anteriores as pessoas ja foram libertadas e os carros abandonados..."
Igor foi levado, a seguir, para um Posto da Polícia Rodoviária Estadual, enquanto os Rodoviários Federais, após deixá-lo, reiniciavam diligências para tentar localizar a pick-up roubada.
Passava de uma hora da madrugada. Dois policiais civis, da Delegacia Central, informados, imediatamente locomoveram-se encetando diligência, no sentido de localizar a caminhonete. Conheciam bem o local e, como estavam no centro da Cidade, entraram no Condomínio pelo lado oposto que haviam tomado os Rodoviários. Alcançaram o local, lentamente, observando todos os lados. Não tardou, um vulto surgiu, semelhante a um veículo, faróis apagados, estacionado na lateral da rua de terra. Os dois policiais civis diminuíram ainda mais a marcha, desligaram os faróis, pararam a certa distância, desceram, sorrateiramente, aproximaram-se. Enquanto um rodeava o carro roubado, pelo lado direito, o outro, curvado, para não ser notado, alcançava o lado esquerdo, lado do motorista. Respirações ofegantes, sacaram suas armas e com um movimento combinado e ensaiado, encostaram-nas nas janelas do veículo, dizendo:
"Polícia! Polícia!"
Nenhum movimento dentro do carro; nenhuma resposta. Porém, havia um vulto de pessoa, do lado do passageiro, que fez com que o policial do lado direito se retraísse, cauteloso, para não ser surpreendido. Aproximou a sua lanterna e notou que o vidro estava fechado e apresentava um furo, semelhante ao provocado por projétil de arma de fogo.
O outro policial, do lado do motorista, também levantou a sua lanterna encontrando o vidro totalmente abaixado.
Puderam notar, cada um de seu lado, que se tratava de uma mulher, sentada, com a cabeça reclinada, e sinais característicos de que fora atingida mortalmente.
Nesse momento, aparecia aquela viatura dos Policiais Rodoviários, os quais, de imediato, acionaram o rádio, tentando agilizar o resgate do Corpo de Bombeiros, em auxílio aos policiais civis.
Passados alguns minutos, sem que o resgate chegasse, os dois policiais civis resolveram encaminhar a pessoa ferida para o hospital.Cogitou-se em socorrer a vítima na própria pick-up. Para tanto os policiais procuraram a chave da ignição por toda parte: no assoalho do carro, sobre os bancos, no amplo painel, porta-luvas, assim como do lado externo. Debalde.
O vidro da janela, que apresentava um furo de projétil, acabou de cair com o impacto de abrir e fechar a porta, quando da apressada retirada da vítima.
Puseram a viatura policial em movimento e, ainda dentro do condomínio, duzentos metros para cima, encontraram o vigilante do Condomínio, que saía de uma travessa, conduzindo a sua motocicleta, com a qual percorria a área em seu trabalho noturno.
Ao deparar com a viatura, parou ao lado, reconhecendo prontamente o policial que a dirigia e sendo, também, por este reconhecido:
"Vigilante", -disse o policial-, "me faça um favor. Não descole daquele carro, ali perto da ponte, tá vendo, porque houve um assalto e eu estou levando a vítima ao hospital. Cuide para mim que tem coisas de valor no carro."
"Sim, senhor"-respondeu o Vigilante, acelerando a sua moto, em direção à pick-up, pouco além de uma pontezinha.
Nem bem o Vigilante terminasse a frase e já os policiais desapareciam na escuridão, rumo ao hospital.
Após exames preliminares, os médicos trouxeram a trágica notícia do óbito. Os policiais partiram para o Posto da Rodoviária Estadual, onde ainda se encontrava o Promotor, e segundo relatara um dos policiais, a notícia o deixara DESESPERADO.
Alguém o levara ao hospital e aí fora providenciado um calmante ao Promotor.
Por volta das três horas da madrugada, ainda no hospital, compareceu o Delegado de Polícia, amigo do Promotor. Cabelos grisalhos e óculos fundo de garrafa, parecia sempre estar resfriado, fungando a cada pouco, como se quisesse evitar escorresse o ranho pelas narinas. Puxou o lenço do bolso e esfregou, pacientemente, as lentes grossas. Igor o divisara na porta, comunicando-se pelo celular, gesticulando, com ar preocupado, dando ordens, caminhando sem parar, indo e vindo.
Após o debate, via fone, aproximou-se do Promotor, cumprimentando-o friamente. Não trazia a costumeira fisionomia agradável e, desde o primeiro instante, tratou o promotor com certa distância. Não olhava nos olhos, parecendo guardar alguma mágoa, fato que passou despercebido. Porém, o Promotor não sabia a que atribuir semelhante mudança. Expôs, sinteticamente, o ocorrido, depois lamentou:
"Você viu o que me aconteceu? Um minuto muda toda a vida da gente."
Lembrou-se de que notícia recente dava conta de que irmão conta de que o irmão do delegado sofrera grave lesão ao enfrentar um assaltanteque o atingira com projétil de arma de fogo.
"Eu fiquei sabendo-disse ao Delegado-que o seu irmãofoi hospitalizado e já está fora de perigo. Espero que ele se recupere logo."
O delegado estava inquieto. Apertou os sobrecenhos, encarou o Promotor, como que recriminando aquela lembrança:
"Meu irmão, graças a Deus, está bem. Mas estou sabendo que um dos teus irmãos é advogado da quadrilha que quase o matou. Ouvi dizer, também, que eles vão voltar e que eu sou a "bola da vez". Você não ficou sabendo disso?"
Igor não sabia bem onde ele queria chegar, mas viu os seus olhos, em brasa, declararem certa indignação, dizendo- "Não estou sabendo nada disso."
"O que você está?" O diálogo foi interrompido quando dois outros policiais chamaram o Delegado de lado.
A seguir, voltou ao Promotor, convidando-o a acompanhá-lo até a Delegacia, para formalizar a ocorrência, sendo que ambosdirigiram-se à viatura policial, estacionada logo ao lado do hospital. Sentou-se ao volante, o Delegado, ligou o carro, soltou o breque de mão e perguntou, de chofre, sem olhar para o Promotor:
"Você se dava bem com a sua esposa?"
Essa pergunta ferina causou estranheza ao Promotor que se virou para lado do amigo, mas este mantinha a cabeça reta para a frente, olhar fixo no horizonte, atencioso, talvez, ao trânsito da madrugada. Haveria ali uma pergunta sutil de curiosidade ou teria um fundo de malícia investigativa à procura de um fio, uma réstia, para montar um castelo, previamente arquitetado? Manteve-se calmo, mas sentiu na pele que a indagação trazia mais fel do que mel, mas malícia do que virtude, mais profissionalismo do que amizade.
"Nós estávamos em lua de mel-respondeu o Promotor. Nunca tivemos o menor desentendimento. Não entendi o porquê dessa indagação."
"Não é isso. Veja, são certas perguntas que a gente tem que fazer para poder traçar uma linha de trabalho em cima desse caso."
"Você nos conhece, frequentou a nossa casa e sabe que eu me dava bem com ela."
Chegaram defronte à Delegacia e encaminharam-se a uma saleta do fundo.
No corredor, antes mesmo de atingir a sala, o Dr. Delegado, em voz baixa, como se quisesse sussurar algum segredo, pigarreou, fungou:
"Igor, você sabe que eu sou seu amigo, desde a Academia de Polícia quando você começou a sua carreira como delegado, também.Então, o que vamos conversar aqui vai ficar entre nós dois. Esqueça que você é Promotor de Justiça e eu Delegado. Não se ofenda com o que eu vou perguntar: você nunca desconfiou do comportamento da sua mulher...o filho...você tem certeza que era seu?"
"Certeza absoluta, respondeu o Promotor. Mas, não se ofenda também, com o que eu vou perguntar: é por aí que você vai começar a investigação? Se está desconfiado de mim, pode tirar isso da cabeça. Ela era minha amiga, companheira, estávamos juntos o tempo todo e, desde que nos casamos me deu o menor motivo para levantar a mínima suspeita de sua conduta.Ela era honrada, correta. Eu não vou admitir esse tipo de insinuação."
"Não é isso que eu estou dizendo...eu quero dizer...se você fez alguma besteira...poxa, ajudamos tanta gente que nem conhecemos, então se você disser que num momento de descontrole...sei lá...perdeu a cabeça...ficou sabendo que o filho não era seu..."
"O que é isso!-disse o Promotor, demonstrando enorme indignação. Que conversa é essa?"
Aproximou-se mais do Delegado, que agora estava sentado na mesa, balançando as pernas, inquieto e perguntou:
"Voce não tem o direito de de achincalhar a honra das pessoas dessa forma. Você está me interrogando? Pedindo uma confissão?Afinal, o que você quer?"
O Delegado não regrediu. Agia como o predador que persegue a caça, ora dissimulada, ora ostensivamente, tentando um cerco estratégico.
Caminharam, a seguir, para uma sala maior, exclusiva do Delegado, onde ele se sentou, pegou uma folha de papel e uma caneta e foi rabiscando qualquer coisa. Seu plano estava montado.
O Promotor acomodou-se no sofá encardido, do outro lado da mesa e observava o amigo, imaginando qual seria a próxima batatada...que não tardou:
"Igor, você precisa entender mais uma coisa: vou te ter que pedir exame residuográfico das tuas mãos. Não que eu queira. Acontece que preserva a nossa responsabilidade , porque senão vão dizer que fui omisso, que estou te protegendo e, assim, evitamos muita coisa..."
"Sem problema. Não fique constrangido, -respondeu o Promotor, demonstrando muita calma. Vamos fazer o exame. Concordo plenamente. Se você não pedir, eu mesmo vou solicitar. Pelo que que estou pressentindo você já escolheu o caminho de sua investigação, não é?"
O Delegado não respondeu. Deixou de rabiscar, levantou os olhos, em direção ao Promotor. Este olhou firmemente o amigo, sem mais nada dizer.


 Dr. Henrique Caire Martel.





"Nenhum promotor ou delegado sério começa uma investigação sob o pressuposto de que o suspeito é culpado. E todo delegado e promotor que avança conclusões antes de terminadas as investigações não pode ser considerado sério."





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